quarta-feira, agosto 12th, 2009

Frei Antônio Moser | Síndrome do pânico: eis a verdadeira ameaça

Sempre que surge uma ameaça para a saúde da população, cabe às autoridades competentes emitir um alerta, e, sobretudo tomar as medidas adequadas. Por isso mesmo, não vem ao caso levantar suspeitas sobre a boa vontade, seja dos organismos ligados à saúde pública, seja à grande mídia.

O que pretendemos aqui é promover algumas anotações sobre fatos um tanto quanto estranhos que estão ocorrendo no contexto do que se denominou de “pandemia”, relacionada com a gripe suína. Primeira anotação: é curioso que há alguns anos o mundo tremeu diante das ameaças mortais da denominada “gripe do frango”. Como que por encanto, a gripe desapareceu. Seu desaparecimento não foi resultado de medidas adequadas para enfrentar a ameaça. A gripe simplesmente sumiu quando sumiram certas situações políticas incômodas. Algo de parecido aconteceu com a “gripe asiática”. Segunda anotação: de repente pouco se fala de gripe “suína” para se falar agora de um terrível vírus que poderia dizimar milhares de vidas: o H1N1. Os “suínos” deixaram de ser bodes expiatórios e voltaram tranquilos aos seu habitat. Terceira anotação: há poucos meses a grande ameaça sobretudo às mulheres grávidas ou em idade fértil trazia o nome de rubéola. Milhares de pessoas foram vacinadas.

Chegou a ser noticiado que agentes de saúde iam forçando as pessoas a receberem a vacina. Novamente a rubéola sumiu do mapa, sem deixar rastros. Quarta anotação: desde há meses sabe-se que o surto anual e “comum” de gripe ocasiona muito mais mortes do que aquelas agora atribuídas a esse desconhecido vírus que hipoteticamente poderia provocar uma pandemia. Quinta anotação: há muito se sabe que no Brasil anualmente milhares e milhares de pessoas, de todas as idades, são afetadas por malária, sarampo, diarréias, pneumonias e tantas outras enfermidades tão ou mais perigosas quanto a gripe suína. E, no entanto, elas vão se alastrando em meio a um silêncio sepulcral.

Diante de tudo isso e muito mais do que todos sabem no que se refere às condições de saúde no Brasil, emergem, naturalmente, algumas questões incômodas, como essas: diante da recomendação de lavar continuamente as mãos, o que pensam os que não têm água nem para beber? O que pensam os que ouvem recomendações para deixar janelas e portas abertas quando nem sabem o que é isso? O que pensam os que ouvem que “aos primeiros sintomas” devem procurar um médico, quando até mesmo as pessoas possuidoras de planos de saúde se vêem obrigadas a esperar duas ou mais semanas para serem atendidas?

Com certeza, até as pessoas mais simples já estão tirando suas conclusões. Uma delas é a de que a gripe suína que ninguém sabe exatamente de onde veio e até onde pode se alastrar, não deve ser o mais terrível dos males que nos afetam. Uma conclusão lógica: como ir ao médico se a maior parte dos nossos postos de saúde não apresentam a mínima condição para ostentar esse pomposo título “de saúde”, uma vez que mais parecem focos de doenças, onde não apenas vírus, mas as mais terríveis bactérias encontram clima favorável para se alastrar e ganhar sempre maior força?

Outra conclusão ainda: muitas pessoas que, por circunstâncias várias mais vegetam do que vivem, devem achar muito interessantes as máscaras brancas que recordam as burcas de outras culturas. O uso de máscaras, quase obrigatório em certos ambientes, recorda um certo “kit de primeiros socorros” de anos atrás… Hoje ninguém mais ouve falar dele. Com certeza muitos professores e professoras, sem falar dos alunos e alunas dos mais diversos graus de ensino, devem estar achando muito interessante o prolongamento das férias, pois estão certos de que em duas semanas o terrível vírus terá desaparecido, novamente por encanto. Claro que nada disso impede as concentrações nos shoppings e outros ambientes de diversão. Em suma: não seria o caso de se perguntar se a verdadeira ameaça para a saúde pública não provém do que se poderia denominar de “síndrome do pânico” alimentado pelos mais diversos interesses econômicos e políticos?

Pontualizando melhor: será que o incremento do pânico, que faz emergir com força uma certa paranóia, não estaria ao serviço de processos de ocultação de escândalos que estão pipocando a cada dia que passa? Será que a indústria farmacêutica também não está interessada em produzir ( se é que já não produziu) milhões de doses de vacinas, muitas vezes de duvidosa eficácia e de duvidosa proveniência? Claro que diante de qualquer uma das múltiplas ameaças à saúde, todos devem se empenhar para garantir um ambiente saudável. Mas, com certeza, a disseminação do pânico nunca contribuirá para garantir tal ambiente. Por si só o pânico já se constitui numa grave enfermidade social. Por isso mesmo requer empenho para detectar sua origem e combatê-lo de maneira eficaz, através do cultivo de uma consciência crítica capaz de discernir onde mora o verdadeiro perigo.

Category: colunas

2 Responses

14 de agosto de 2009

Frei, sim, de pleno acordo.
Considero suspeitos os modos como os vírus aparecem , matam e desaparecem.
Mas, muito mais suspeito é o desinteresse em se colocar o assunto de modo barato e eficaz.
Há remédios homeopáticos que fortalecem o sistema imunológico , e sabe-se que o “Tamiflu” é feito a partir do aniz estrelado que por sua vez tem as mesmas sustâncias da erva doce.
Temos o Instituto Roberto Costa na rua Alfredo Pachá, temos imprensa, temos como divulgar meios a fortelecer o sistema imunológico se o caso é a gripe. Suína, caprina, ovina, bovina, nada, é a cobiça humana.
Penso e fantasio – até em extermínio. Quem vai herdar os bens naturais já escassos? Os filhos dos pobres?
Os escândalos beneficiam a um povo que está preocupado se a novela mostra uma Índia injusta se este povo , o brasileiro vive num sistema de castas porém disfarçado de democracia e liberdade?
Se eu, mulher madura, avó, ouvi de uma educadora do setor público que a pedagogia não é prá os alunos selvagens da rede pública e se esta mesma “educatriz” cursou a Pedagogia com dinheiro público do Fundef, vou esperar o quê de quem?
De mim mesma – como pessoa , avó, cidadã, tentando fazer a diferença.
Obrigada.


14 de agosto de 2009

A precariedade dos serviços de informação e saúde me deixam um pouco desconfortável em relação à nova gripe. Por via das dúvidas, meus filhos ficarão em casa mais uma semana, pelo menos.

Não sou infectologista e a única coisa que posso fazer pela segurança da minha família é o que faço habitualmente em relação à nutrição, além de estender as férias escolares, mesmo sob o risco de perderem o ano letivo.

Enquanto esse virus nao der sinal de que esta recuando, enquanto o a imprensa não der sinais de que está prestando um serviço público de relevância e, finalmente, enquanto o Estado nao der sinais de que irá adotar as mínimas medidas necessárias ao bem-estar do povo, meus filhos ficam em casa.