Posts Tagged ‘Calau Lopes’
Calau Lopes | Quase uma crônica
Saulo tinha toda a pinta de safado, mas era por certa mania de grandeza. Simpático e bem apessoado, filho de família humilde, há muito que pensava em dar o golpe do baú, “fossem quais fossem as conseqüências”. Com calma, prestando atenção aos movimentos da cidade, escolheu a quem deveria abordar e o momento adequado de fazê-lo: Manoela, no Baile da Associação. Na data e hora exatas – e a noite era agradável e ele se esmerara na aparência – Saulo chegou à festa como quem não quer nada, pesquisou o ambiente e, com todo jeito, num piscar de olhos, apresentou-se à moça, disse-lhe algumas palavras que soaram engraçadas e a convidou pra dançar.
Manoela não era apenas a mais rica, era a mais bela do baile, filha de industrial, educada com caprichos, que sabia tirar proveito das situações. Todos cuidavam de seus movimentos, muitos se quedavam aos seus encantos, mas nenhum conseguira prende-la. Foi com espanto, portanto, que os circundantes assistiram a investida bem sucedida do rapaz, um ilustre desconhecido na sociedade local. O que ninguém supunha é que, há algum tempo, ela também o espreitava. E o jogo entre os dois mal começara, tanto quando rodavam desenvoltos pelo salão, tanto quando à mesa em divertidas confidências. Ele sedutor, ela insinuante; ele galante, ela encantadora. Como que num passe de mágica, tratavam–se como se amigos fossem desde sempre.
Calau Lopes | Um Dia Santo
Hoje é dia de São Francisco, dia 4 de outubro. Lembro-me de minha visita à Assisi, na Itália, em 2006, primeiro contato com a cidade e a região onde viveu o grande homem, a partir de 1181. E me vem à mente a emoção em descer na estação de trem, alcançar a praça em frente, avistar ao longe, na colina, a linda cidade e a Basílica de São Francisco, pegar uma caminhonete com amigos e percorrer a linda estrada, a vialle Vitorio Emanuele II, até chegar à Praça de Santa Clara.
A todo instante meu pai, Raul, na mente – ele, um devoto franciscano – e eu ali como que a representá-lo em reverência à sua maior referência…Na “Basilica di S. Chiara”, depararmo-nos com o famoso crucifixo de San Damián que falou à Francisco, pela primeira vez, no início de sua conversão. Depois, seguirmos a pé pelo Corso Mazzini até a Praça da Comunidade, atentos a cada loja, a cada café. Visitamos o Templo de Minerva e percorremos a Via San Francesco até chegarmos a Basílica de nosso querido Santo, todos maravilhados com o que se via e se sentia a cada momento: natureza, arte e misticismo em perfeita harmonia. E aí o coração pulsou mais forte, ao entrarmos na grande igreja, e aumentou o batimento a cada passo dado pelas capelas do santuário adentro, até a indescritível sensação em orar em profundo silêncio e paz na cripta onde se encontra a tumba de San Francesco.
Reflexão sobre a cidade na primavera dos museus
Artistas, historiadores, professores, pesquisadores, volta e meia levantam fatos ligados às raízes petropolitanas e os caminhos que nos levam às questões dos dias atuais. Mais uma oportunidade será nos dias 26 e 27 de setembro, às 20 horas, no Palácio Rio Negro, com a performance intitulada “1889: Daqui por Diante…” que tem à frente Arthur Varella, Calau Lopes e Flávio Kactuz .
Calau Lopes | Quintares
Mário Quintana – especial poeta gaúcho de Alegrete, um dos gigantes de nossa literatura – teria completado 103 anos de existência no dia 30 de julho deste 2009. Deixou-nos seu exemplo de vida, sua arguta percepção das gentes e das coisas, seus belos versos, suas reflexões.
Certa feita Quintana registrou: “Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando problemas dele, João Silva… Ele está bebendo a milenar inquietação do mundo!”
Sobre sua condição de artista-escritor, disse: “Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível entre todas as outras”. E arrematou: “A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa… e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita”.
Calau Lopes | “Algo hicimos mal”
Palavras do Presidente Oscar Arias da Costa Rica na Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, em 18 de abril de 2009.
-Discurso proferido na presença de Lula e dos demais presidentes latino-americanos, incluído o caloteiro Corrêa. Um discurso, em transcrição solta, que reproduzo porque lúcido, justo, corajoso…Página que, entendo, merece ocupar este espaço para reflexão-
“Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latino-americanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América, é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros. Não creio que isso seja de todo justo.
Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades, antes de que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país. Não podemos esquecer que nesse continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750, todos os americanos eram mais ou menos iguais: todos eram pobres.
Calau Lopes | A poesia de Dante Milano
Volto a falar de poesia – “uma indecisão entre um som e um sentido”, “arte de dizer apenas com palavras o que palavras não podem dizer”, como lembra Alexei Bueno em seu livro Uma História da Poesia Brasileira – exatamente porque nos enleva, arrebata, porque, enfim, traz-nos força ao pensamento e nobreza à alma. Sorry periferia!
E lembro, hoje, de um poeta especial: Dante Milano (1899-1991), carioca-petropolitano, um “exemplo singularmente raro em nossas letras, que parece escrever seus versos naquele indefinível momento em que o pensamento se faz emoção”, como disse Manuel Bandeira.
Vinícius de Moraes afirmou: “Dante Milano é notável por sua forma poética de grande pureza”; Otto Lara Resende sentenciou: “Dante Milano é uma espécie de santo da poesia”; Carlos Drummond de Andrade o admirava como um dos maiores e o tinha como grande amigo…
Calau Lopes | Anita Garibaldi
Ana Maria de Jesus Ribeiro, Anita Garibaldi – mulher de Giuseppe Garibaldi – foi uma grande mulher, uma excepcional guerreira. Nascida em Morrinhos, atual Laguna-SC, em 30 de agosto de 1821, veio a falecer na Itália, em 4 de agosto de 1849. Não chegou aos trinta anos, mas viveu intensamente, reverenciada, hoje, como uma heroína de duas nações.
Anita teve uma vida bem árdua. Com o falecimento do pai, ajuda desde cedo no sustento da família e é obrigada pela mãe a casar-se, aos 14 anos, com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar. O enlace dura apenas três anos, quando seu marido alista-se no exército imperial e a abandona.
Em 1839 ela conhece Giuseppe Garibaldi, por quem se apaixona, e assume um papel de extrema importância na vida do revolucionário. Além de se transformar em sua grande amante e companheira, Anita, que era uma excelente amazona, ensina-o a cavalgar. E é dominando a arte de fazer guerrilha a cavalo, contando com Anita, que Giuseppe conquista expressivas vitórias tanto na América do Sul como na Europa.

Calau Lopes | Eu me lembro
Quero curtir a longevidade produtivamente, também retendo na lembrança cenas, fatos, costumes que marcaram a infância ou a adolescência como, por exemplo, ouvir música clássica com meu pai, Raul – a Pastoral de Beethoven como que a nos acompanhar em nossas caminhadas pela Floresta da Tijuca, nas subidas à Pedra Bonita, nos passeios pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Na casa de meus avós maternos, Antônio e Margarida, lá na Estrada da Gávea, lembro-me torcendo por Chico Landi na última corrida de “baratinhas” do circuito conhecido como ”O Trampolim do Diabo”.
Lembro do atentado a Carlos Lacerda e a morte do Major Vaz. Depois, o suicídio do Getúlio, em agosto de 1954, e o reboliço e comentários que tudo isso ensejou no seio da família, pois meu pai trabalhava na Tribuna da Imprensa. E como era gostoso comprar no armazém da esquina doce de abóbora, pé de moleque, maria-mole. E assistir aos filmes de Tom&Jerry e do Disney no cinema Metro ou no Pax, na Tijuca ou em Ipanema. Eu e minhas primas, Lúcia e Letícia, não perdíamos o “Teatrinho Trol”, ou “Vesperal Trol”, na antiga TV Tupi: a Zilka Salaberry sempre de bruxa ou senhora má, o Paulo Padilha de rei ou paizão, o Roberto de Cleto de príncipe, de galã nas histórias, e a Norma Blum (ah! quantos sonhos, quantos suspiros…) sempre de princesa, de bela donzela. Todos dirigidos pelo Fábio Sabag. Com que prazer poder dizer que, tempos à frente, conheci cada um desses belos artistas, desfrutei de suas companhias, aprendi com eles.